Da demissão à vida de patrão: conheça brasileiros que perderam o emprego e deram a volta por cima

No Brasil da crise, desejo de empreender está presente em 58% da população

Foram 20 anos como diretora comercial em um grande grupo de comunicação, até que, em dezembro de 2014, Simone Carreira foi demitida.

Na metade de 2015, Edilson Gomes deixou para trás os 23 anos de metalúrgico em uma montadora de veículos no interior paulista, após uma demissão em massa.

Edilson e Simone não se conhecem, mas têm algo em comum: são brasileiros que não se deixaram levar pela crise e deram uma reviravolta na vida. Eles decidiram empreender.

Ter o próprio negócio é o desejo de 58% dos brasileiros, de acordo com a pesquisa Amway Global Entrepreneurship Report, divulgada recentemente. Isso se reflete, justamente, pelo fato de milhões de empregados estarem passando pela mesma situação que Edilson e Simone viveram. O índice de desemprego chegou a 7,6% em janeiro, atingindo cerca de 1,9 milhão de pessoas nas seis principais regiões metropolitanas do País, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Simone avalia que a demissão “foi uma oportunidade de começar uma nova história”. “Eu já sabia que queria abrir um negócio”, conta. A ex-executiva do departamento comercial pesquisou e decidiu que queria abrir uma agência de diaristas. Ela adquiriu uma franquia que estava sendo repassada, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo.

— Já existia essa unidade, montada, mas ainda tinha bastante potencial de crescimento. Eu assumi a operação no dia 1º de abril [de 2015] e de lá para cá quintuplicou o faturamento. É hoje a maior unidade da rede em todo o País. Eu faturava R$ 20 mil, hoje faturo R$ 100 mil, com uma lucratividade de 20%. Ou seja, estou melhor do que quando era executiva.

Foi na Feira do Empreendedor do Sebrae-SP, no ano passado, que ela conheceu a franquia da Mary Help. Identificou-se com o negócio, mas diz que fez uma análise criteriosa antes de tomar a decisão.

— Eu pesquisei bastante, eu me preparei para isso. Conversei com vários franqueados que já tinham operação, comparei com outros modelos de outras empresas do mesmo segmento.

Ela investiu cerca de R$ 50 mil que recebeu da rescisão contratual e em poucos meses já passou a ter retorno. Hoje, são cerca de cem funcionárias autônomas credenciadas e 300 clientes ativos todos os meses.

E as vantagens não estão apenas no bolso, mas na qualidade de vida.

— Sobrou mais tempo para mim. Eu gastava muito tempo no trânsito, porque moro no Tatuapé e trabalhava em Osasco, eram duas horas para ir e duas para voltar. Hoje, eu levo cinco minutos a pé. A qualidade de vida melhorou demais. O sucesso do negócio tem a ver com isso, porque eu estou tão feliz de estar perto de casa, que as coisas começaram a dar certo.

De metalúrgico a empresário do ramo de beleza

A demissão trouxe também insegurança ao ex-metalúrgico Edilson Gomes. “Vinte e três anos não são 23 dias. Você ficar tanto tempo dentro de uma companhia e depois se ver fora dela, você se sente um peixe fora d’água”, conta.

Mas ele não esperou e poucos meses depois já tinha planos concretos. Incentivado pela filha, que também havia sido demitida da mesma montadora, após seis anos de trabalho, o ex-metalúrgico mudou radicalmente de área: abriu uma franquia de embelezamento do olhar, em São José dos Campos.

— Como seria difícil a minha recolocação no mercado no mesmo ramo em que eu estava, eu tinha que partir para algo novo. O novo traz um desavio, que você encara ou não. Nós resolvemos encarar.

A família já conhecia por meio de uma amiga a rede Sóbrancelhas e, por isso, resolveu abrir uma unidade. Foram investidos cerca de R$ 120 mil, com parte do Fundo de Garantia de Gomes.

— A primeira loja nós completamos sete meses. Mas há um mês e meio abrimos a segunda unidade. Hoje, emprego oito pessoas.

Como o investimento foi alto, ele ainda não teve retorno, mas diz que “já dá para se manter”. Virar patrão também foi algo positivo para Gomes, que tem formação em administração de empresas.

— Minha esposa cuida do operacional e eu do administrativo. Eu continuo trabalhando, porém, agora os meus intervalos são mais flexíveis. Eu que faço meu horário e administro as duas unidades de casa, embora visite as lojas sempre.

“Existe vida fora das empresas”

A demissão não vem só em momentos de crise. Em 2008, Fernando Cebrian foi desligado da vaga de diretor que ocupava na maior empresa logística do País.

— Chegou um momento em que falei que não iria mais trabalhar para os outros, achava que eu tinha capacidade de tocar um negócio próprio. Existe vida fora das empresas. As pessoas ficam amarradas dentro das empresas com medo do que será da vida.

Os pequenos clientes que ele era obrigado a dispensar quando era diretor foram a oportunidade encontrada na hora de abrir a BeeHive. Cebrian decidiu empreender para ajudar pequenos e médios empreendedores.

— Eu não poderia ser uma transportadora ou uma logística como as outras, não dava para concorrer com elas. Hoje, eu estou oferecendo para pessoas que querem ter, tanto na presença online quanto off-line, que eu faça a logística delas e que elas fiquem focadas no produto, na venda. Toda a parte operacional eu faço.

A empresa consegue manter os mesmos preços de serviços de postagem, mas se responsabiliza pela embalagem, despacho e até logística reversa das encomendas. Mesmo na crise, ele conseguiu dobrar o faturamento nos últimos anos.

— Neste momento de crise, você tem que olhar para dentro e arrumar a operação, para quando acabar a crise, estar melhor do que hoje. Se for olhar para a crise, você não faz outra coisa.

Perseverança

Adilson Santos Silva, de 43 anos, sabe bem o que é o espírito empreendedor presente na maioria dos brasileiros.

— Desde a minha infância trabalhava em padarias e sempre tive a visão de ter o meu próprio negócio, porém as oportunidades eram poucas.

Em 1997, a padaria em que ele trabalhava faliu. Desde então, ele conciliava outros empregos com a fabricação manual de salgados (coxinhas, bolinhos e quibes), algo que fazia como “um bico”. Treze anos depois, conseguiu um acordo com o dono de uma cafeteria, assumiu a operação do negócio e também inseriu os salgados no cardápio.

Mas Silva sabia que tinha oportunidade de crescer se comprasse uma máquina de fazer salgados. O preço? R$ 30 mil. Dinheiro que ele e a mulher não tinham.

— Eu não tinha condições de comprar. Mas deixei os meus dados com a empresa que vende essa máquina, a MCI, e eles me ligaram um tempo depois, oferecendo uma máquina menor, de R$ 20 mil. Eu tinha conseguido juntar R$ 15 mil, só com a venda dos salgados que fazia na mão, e meu cunhado emprestou o restante.

Antes, ele conta que fazia manualmente, no máximo, 80 salgados por hora. Com a máquina consegue fabricar até mil no mesmo período de tempo. O negócio progrediu e o sonho de crescer continua.

— Já arrumei um comprador para essa máquina e vou comprar uma maior. Quero dizer lá na empresa [que fabrica o equipamento] que, graças a Deus, consegui vencer.