Entre carapaus e resvés, viva a língua portuguesa!

Ontem fui às compras com a minha vizinha, que é um bocado chalupa, diga-se de passagem. Entrámos no talho e ela pediu meio quilo de carne picada e umas iscas, enquanto eu aproveitei para levar uns carapaus fresquinhos. A senhora da peixaria ainda me tentou impingir um polvo, mas estava com um aspecto meio esquisito, parecia já ter ido ao São João e voltado! Saímos dali e fomos à drogaria comprar lixívia e um esfregão novo, porque a minha sanita está uma lástima — parece que passou um grupo de motards por lá. E já que estávamos ali, comprámos uns rebuçados de mentol para o avô, que anda com tosse desde que apanhou corrente de ar ao sair de casa só de camisola de alças. Depois fomos lanchar. Eu pedi um pão com chouriço e um sumol de ananás, e ela foi de bica curta com pastel de nata. Estava tudo uma delícia, até que ela tropeça num lancil e vai parar ao chão, resvés campo de ourique! Ajudei-a a levantar, dei-lhe uma lambada de leve nas costas pra desentalar o susto e seguimos. No fim, ainda fomos à casa dela ver as fotografias das férias no Algarve, mas a televisão estava marada e tivemos que ver tudo no telemóvel com o som todo esganiçado. E é isto. Um dia perfeitamente banal em Portugal. Ou talvez não. Porque se você entendeu tudo sem precisar de dicionário, parabéns: já pode pedir a cidadania portuguesa! 🇧🇷 Tradução e explicações O português é uma língua tão maravilhosa, que consegue ser duas línguas em uma só — e ainda mantém o mesmo nome.Tem palavras que parecem inventadas, outras que a gente acha que entendeu, mas entendeu errado.E no meio disso tudo, seguimos nos entendendo. Com sotaques, mal-entendidos e muitas risadas.No fim das contas, se a língua portuguesa sobrevive a carapaus, chalupas, motards e sanitas, é porque ela é mesmo poderosa. Feliz Dia Mundial da Língua Portuguesa!Ou como diria minha vizinha do Porto: “Isto sim é que é uma língua com tomates!”
Virginia, Bets e bebês reborn definem o jornalismo atual?

Saiu na mídia: o Deputado Estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG) propôs um projeto de lei que visa proibir tentativas de atendimento hospitalar para bebês reborn, com punição de multas de até 10 vezes o valor do serviço prestado. Imagino que nunca, nenhum jornalista pensou que isso um dia seria notícia. A essência da comunicação, que é verificar fatos e transmitir conhecimento, passa longe de assuntos desse gênero. Mas, precisamos dar atenção a uma espécie de “surto coletivo”, que levou uma mulher a procurar consulta no SUS, para seu reborn que “estava com febre” ou uma outra a procurar uma advogada especializada em direito de família para ajudar a resolver a guarda compartilhada da boneca realista com seu namorado, com quem viveu por cinco anos – período em que adquiriu o brinquedo.Entre tantos outros casos que, de repente, começam a aparecer na Internet, nós jornalistas passamos a dar importância ao tema, já que isso pode ser considerado um caso de afeto mal resolvido ou não trabalhado em cidadãos que precisam de apoio psicológico/psiquiátrico. Em tempo de vídeos virais com conteúdo vazio, crianças e jovens que não vivem sem um celular, influencers que fazem tudo por dinheiro e a mão mais que direcionada no botão ativar em gente que, facilmente, se deixa levar por promessas falsas de ganharem milhares de reais em apostas nos Tigrinhos e Bets da vida, a comunicação bem direcionada e acessível a todas as classes sociais e níveis de conhecimento, o trabalho de informação do jornalista é mais atual e necessário do que nunca.Exemplo é o caso recente de Virginia Fonseca, que tem sob sua responsabilidade a influência sobre milhões de pessoas e chega para depor na CPI das Bets com seu look infantilizado, óculos rosa de professora primária e estampa da filha na camiseta, diferente das milhares de fotos que exibem sensualidade, abdômen chapado, dicas de beleza e ostentação de seu extenso patrimônio. O motivo de tudo isso? Campanhas publicitárias para casas de apostas online, utilizando seu dom de influenciar para convocar mais viciados em jogos e inocentes que acreditam de verdade nos ganhos. A convocação de Virgínia se deu ao seu envolvimento em campanhas publicitárias para casas de apostas online e à sua significativa influência no ambiente digital, sem necessariamente utilizar a ética. Os assuntos Bets, Virginia e bonecos reborn são o tema desse texto, porque envolvem um grande direcionamento de profissionais da comunicação que tentam, da maneira mais lúdica possível, explicar que existe uma grande dose de psicologia, fantasia e inocência quando se acredita ser uma mãe reborn ou se crê demais da sorte dos jogos de azar, bem como a opinião de pessoas que “influenciam” sem nenhuma responsabilidade. Então, aos meus colegas de profissão, que hoje estão noticiando fatos como: Padre se nega a batizar bebês reborn; Virginia canta a música do Tigrinho ao vivo em um canal de YouTube ou o quanto as famílias vêm se endividando para jogar online, reforço minha sincera admiração, já que uns são casos psiquiátricos, outros policiais, mas todos com o mesmo comprometimento com a verdade. Afinal, em uma sociedade adoecida, carente de educação de qualidade e facilmente seduzida por promessas milagrosas, o papel do jornalismo responsável é mais vital do que nunca.
O Papa da linguagem Pop

Um dia após a celebração da Páscoa católica, que simboliza o renascimento do Cristo, Jorge Mario Bergoglio disse adeus. O Papa Francisco, nome que adotou ao receber o maior título do catolicismo, foi, sem dúvida, um dos melhores comunicadores religiosos de todos os tempos.Seu jeito simples e acessível de falar são características que conquistaram muita gente mundo afora. Ao evitar jargões teológicos complexos e usar uma linguagem humilde e acolhedora, trouxe à tona o objetivo máximo da comunicação: a sensação de proximidade e empatia, essenciais para que as pessoas se sintam ouvidas e compreendidas.Frases icônicas como “Como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres” mostram que ele não vivia de teorias, mas sim da exaltação da prática e da ação, em busca de despertar a fé.Outra fala de grande importância durante seu papado foi “Se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la? O Catecismo da Igreja Católica explica e diz que tais pessoas não devem ser marginalizadas, e devem ser integradas à sociedade”. A frase ressignificou a presença do público LGBTQ+ na instituição católica.Outra característica de Francisco foi a utilização de histórias e metáforas para ilustrar seus pontos de vista e tornar suas mensagens mais acessíveis, assim como fez Jesus.A comunicação do Papa também se fazia através da comunicação não verbal. Ao utilizar, por exemplo, um trono branco e simples, em vez de outro decorado em ouro, deixou claro seu apreço pela simplicidade, com mensagem direta para seus sucessores. Alguém terá a coragem de voltar ao luxo excessivo depois da passagem de Francisco?Sem dualidade e sem deixar oportunidade para ser mal interpretado em seus atos e palavras, ele escolheu Francisco de Assis como fonte de inspiração e base de comportamento. A vida sem apreço aos bens materiais foi a meta dos dois Chicos, que viam a existência do ser humano sem olhos de preconceitos.Para encerrar esse texto, uso mais uma fala de Jorge Mario, que resume todo seu legado: “Quem pensa em construir muros e não em construir pontes, não é cristão”. Isso resume que o querido Santo Padre soube ser representante do Cristianismo na Terra e enche nossos corações de amor.A Deus, Papa Francisco. Por aqui, fica a saudade. Que seu substituto esteja à altura de sua sabedoria.
IA e a Turma da Mônica: Onde Está o Limite?

O criador da Turma da Mônica diante das imagens de IA Quem poderia imaginar que, no final dos anos 50, aqueles personagens incríveis, criados pelo mito Mauricio de Sousa, fosse ter algum tipo de polêmica com uma coisa chamada Inteligência Artificial? No auge de seus 89 anos, Maurício nunca poderia imaginar que a vida poderia mudar tanto em 66 anos? Nem a mais inteligente das criaturas poderia prever a existência da IA. Falo isso porque, nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por publicações em forma de desenho que imitam com precisão o estilo da Turma da Mônica. Criadas com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial, essas produções foram milhares de vezes repetidas e despertaram a atenção do público e da imprensa por reproduzirem os traços característicos do gênio Maurício. A fronteira delicada entre arte e automatização As imagens criadas por IA, embora tecnicamente bem executadas, levantam questões importantes sobre a fronteira entre inovação tecnológica e a proteção dos direitos autorais no campo das artes visuais. Os traçados do autor, característica ímpar de sua história sendo copiada de maneira tão fácil ao simples digitar de alguns comandos. Não dá para negar que a qualidade estética das representações. Pessoas comuns e até famílias inteiras parecem ter saído da Vila do Limoeiro. Os personagens, cenários e formas de expressão são replicados com detalhamento impressionante. Mas, e os direitos do criador? O debate sobre patentes e ética é longo e ainda não existem leis que realmente regulamentam essa questão. A psição da MSP diante das imagens de IA A Maurício de Sousa Produções, empresa oficial da turminha, se manifestou oficialmente sobre o tema. Em sua nota, reforça que acompanha com atenção os impactos da inteligência artificial na produção cultural e artística, reconhecendo seu valor para o setor. Como ter uma postura diferente perante algo inevitável? No entanto, a MSP também ressalta que a criação automatizada não pode ignorar o respeito à originalidade, à autoria e ao legado de décadas de trabalho artístico. Falamos aqui de responsabilidade proporcional ao seu alcance. Assunto delicado. A MSP falou, ainda, que irá recorrer aos meios legais para coibir o uso não autorizado de seus personagens e do estilo gráfico que caracteriza sua obra. Nesse caso, as imagens criadas por I.A, quando utilizadas sem autorização, passam a ser tratadas como violação dos direitos de propriedade intelectual. Esta decisão é apenas o começo que marca uma mudança de postura clara e estabelece um precedente relevante para a regulamentação do uso da inteligência artificial no setor criativo. Então, em meio a tudo isso, há muito o que se trabalhar sobre a relação direitos autorais x reprodução automatizada. Há ou não a intenção de copiar sem pagar? As imagens criadas podem ser perfeitas, mas não necessariamente originais — pois carecem da vivência que transforma técnica em expressão, ou seja, a máquina junta o que humanos fizeram em centenas de anos. Avanço tecnológico com responsabilidade e respeito O ideal é estabelecer uma boa convivência entre o avanço tecnológico e a real manifestação artística. Esse tema sério envolve muitas questões que ainda são encobertas pelo véu da ignorância digital. Tudo o que é e será criado através da IA terá uma evolução muito rápida. A solução entre criadores e desenvolvedores de tecnologia só virá com políticas claras e respeito. Maurício de Sousa pode até ser “copiável”, mas sempre será Maurício. Quem será o grande “pai” das obras que ainda estão por vir, tecnologicamente falando? Fica o questionamento.