A comunicação materna é o nosso primeiro idioma

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Por Luciene de Oliveira

Antes de aprendermos a falar, aprendemos a ser lidos.

Muito antes das primeiras palavras, existe uma comunicação instintiva e poderosa entre mãe e filho. Ela está no olhar que acolhe, no colo que acalma, na voz que reconhecemos antes mesmo de entender o mundo, no jeito de interpretar o choro, o medo, a fome, a alegria e a insegurança.

A comunicação materna é, talvez, o nosso primeiro contato real com a vida em sociedade. É por meio dela que começamos a perceber se podemos confiar, pedir, esperar, reagir, insistir, recuar ou nos expressar. Antes de formar frases, já estamos aprendendo sobre escuta, afeto, limite, presença e pertencimento.

Minha mãe era uma mulher muito comunicativa. Dessas pessoas que ocupam os ambientes não apenas pela presença física, mas pela forma de falar, de ouvir, de contar histórias, de reunir gente e de transformar conversas simples em memória. Ela já não está mais aqui, mas percebo, cada vez mais, o quanto sua maneira de se comunicar permanece viva em mim.

Está no meu jeito de acolher, de explicar, de insistir na palavra certa, de tentar traduzir sentimentos complexos e de acreditar que a comunicação pode aproximar pessoas, resolver ruídos, construir pontes e também curar silêncios.

Hoje, como mãe de dois meninos, vejo muito dela em mim. Às vezes, em uma frase que sai sem planejamento. Em outras, no tom de voz que uso para acalmar uma insegurança, na tentativa de transformar uma bronca em aprendizado, na paciência nem sempre perfeita, mas sempre carregada de amor.

A maternidade nos revela espelhos inesperados. E um dos mais fortes é perceber que repetimos, reinventamos e ressignificamos a linguagem das mulheres que vieram antes de nós.

No Dia das Mães, é comum falarmos de amor, cuidado, renúncia e presença. Tudo isso é verdadeiro. Mas também vale falar da mãe como a primeira grande comunicadora da nossa história. Aquela que nos ensina, mesmo sem perceber, como nomear o mundo.

Uma mãe comunica quando fala. Mas também comunica quando silencia para ouvir. Quando impõe limites. Quando incentiva. Quando corrige. Quando protege. Quando permite que o filho tente sozinho. Quando demonstra orgulho. Quando pede desculpas. Quando mostra, pelo exemplo, que palavras têm peso, mas também têm abrigo.

Talvez por isso tantas marcas emocionais da infância estejam ligadas ao que ouvimos, ao que não ouvimos e ao modo como fomos escutados. A comunicação materna não termina na infância. Ela nos acompanha na vida adulta, influenciando a maneira como nos posicionamos, defendemos ideias, expressamos sentimentos, lidamos com conflitos e construímos relações.

Como profissional de comunicação, aprendi ao longo da vida que comunicar não é apenas transmitir uma mensagem. É criar vínculo, gerar compreensão, provocar movimento. Como filha, entendi que muitas das minhas primeiras referências vieram da minha mãe. Como mãe, descubro diariamente que cada palavra dita dentro de casa pode ser uma semente.

Neste Dia das Mães, penso na minha mãe com saudade, gratidão e reconhecimento. E penso também nos meus filhos, que um dia talvez enxerguem em mim traços que hoje reconheço nela.

Porque a maternidade também é isso: uma conversa que atravessa gerações.

Uma voz que muda de corpo, mas continua ecoando. E para sempre.

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